Na Margem Do Rio Piedra Sentei E Chorei

20 11 2007

Nota do autor:

Um missionário espanhol visitava uma ilha quando encontrou três sacerdotes astecas.

– Como vocês rezam? – perguntou o padre.

– Temos apenas uma oração – respondeu um dos astecas. – Nós dizemos: “Deus, tu és três, nós somos três. tende piedade de nós”.

– Bela oração – disse o missionário. – Mas ela não é exatamente a prece que Deus escuta. Vou lhes ensinar uma muito melhor.

O padre ensinou uma oração católica, e seguiu seu caminho de evangelização. Anos depois, já no navio que o levava de volta à Espanha, teve que passar de novo por aquela ilha. Do convés, viu os três sacerdotes na praia – e acenou-lhes.

Neste momento, os três começaram a caminhar pela água, em direção a ele.

– Padre! Padre! – chamou um deles, se aproximando do navio – Nos ensina de novo a oração que Deus escuta, porque não conseguimos lembrar!

– Não importa – disse o missionário, vendo o milagre. E pediu perdão a Deus, por não ter entendido antes que ele falava todas as línguas.

Esta história exemplifica bem o que o autor procura contar em Na margem do rio Piedra sentei e chorei. Raramente nos damos conta de que estamos cercados pelo extraordinário. Os milagres acontecem à nossa volta, os sinais de Deus nos mostram o caminho, os anjos pedem para serem ouvidos – mas, como aprendemos que existem fórmulas e regras para chegar até Deus, não damos atenção a nada disto. Não entendemos que Ele está onde O deixam entrar.

As práticas religiosas tradicionais são importantes: Elas nos fazem partilhar com os outros a experiência comunitária da adoração e da oração. Mas nunca podemos esquecer que a experiência espiritual é sobre tudouma experiência prática de amor. E no amor não existem regras. Podemos tentar seguir manuais, controlar o coração, ter uma estratégia de comportamento – mas tudo isto é bobagem. O coração decide e o que ele decidir é o que vale.

Todos nós já experimentamos isso na vida. Todos nós, em algum momento, já dissemos entre lágrimas; “estou sofrendo por um amor que não vale a pena”. Sofremos porque achamos que damos mais do que recebemos. Sofremos porque nosso amor não é reconhecido. Sofremos porque não conseguimos impor nossas regras.

Sofremosà toa: Porque no amor está a semente de nosso crescimento. Quanto mais amamos, mais próximos estamos da experiência espiritual. Os verdadeiros iluminados, com suas almas incendiadas pelo Amor, venciam todos os preconceitos da época. Cantavam, riam, rezavam em voz alta, dançavam, compartilhavam aquilo que são Paulo chamou de “santa loucura”. Eram alegres – porque quem ama venceu o mundo, não tem medo de perder nada. O verdadeiro amor é um ato de entrega total.

Na margem do rio Piedra eu sentei e chorei é um livro sobre a importância desta entrega. Pilar e seu companheiro são personagens fictícios, mas símbolos dos muitos conflitos que nos acompanham na busca da Outra Parte. Cedo ou tarde, temos que vencer nossos medos – já que o caminho espiritual se faz através da experiência diária do amor.

O monge Thomas Merton dizia: “A vida espiritual se resume em amar. Não se ama porque se quer fazer o bem, ou ajudar ou proteger alguém. Se agimos assim, estamos vendo o próximo como simples objeto, e estamos vendo a nós mesmos como pessoas generosas e sábias. Isto nada tem a ver com amor. Amar é comungar com o outro, e descobrir nele a centelha de Deus”

Que o pranto de Pilar na margem do rio Piedra nos conduza pelo caminho desta comunhão.

                                                                Paulo Coelho

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